Daniel e David – Gémeos no comunismo
Daniel (pseudónimo de Álvaro Cunhal) figura cimeira do comunismo português tem uma biografia bem conhecida dos portugueses. O seu lugar, enquanto combatente contra a ditadura e na construção do PCP deram-lhe um lugar mítico dentro e fora do partido. Os vários volumes da sua biografia escrita por José Pacheco Pereira, trabalho geralmente sério, terão contribuído para alguma desmistificação.
A mitologia de Daniel construiu-se por meio de aspectos tão diversos como a estadia e fuga da prisão, os seus textos literários e desenhos, para não falar da sua vida amorosa. O mistério foi sempre bem gerido, contribuindo para a mitologia do “grande partido anti-fascista” que terá tido um papel bem menor na luta contra a ditadura do que aquilo que se pensa.
Tal como o papel do PCP foi mais pequeno que o proclamado também o papel de Daniel foi mais pequeno que o celebrado pela história oficial no PCP. Sendo uma boa parte desta história passada em tempo de ditadura poucos conheciam as partes mais obscuras, os rivais eliminados, as verdadeiras condições da clandestinidade. O conflito do PCP com uma ala pro-chinesa contribui para a bruma em que está envolta a figura de Cunhal. A política de fechamento de arquivos aos historiadores ajuda a um conveniente não conhecimento.
A mitologia em torno da figura de Cunhal é suficiente para que na televisiva eleição do “Maior Português de Sempre” tenha ficado em segundo lugar, a seguir a Salazar. Apesar dos exageros e da mitologia é inegável o papel que teve na construção do partido e na vida política portuguesa do Século XX.
Com cinquenta anos cumpridos há pouco tempo e sem uma grande história de luta contra a ditadura (a idade não o permite) a figura de David apresenta traços comuns com a de Daniel. Há um mesmo perfil austero, uma importância semelhante na construção partidária, uma grande capacidade intelectual e uma grande cultura e um extravasar das fronteiras dos respectivos partidos. Se um conseguia ser eleito um dos maiores portugueses de sempre, o outro, apesar de liderar um partido que só agora entrou no campo dos grandes, apresentava-se, desde há alguns anos, como um dos políticos mais populares do país.
Creio que já está levantado um pouco do véu da verdadeira identidade de David, mas um pequeno episódio ajudará a estabelecê-la melhor. Vivia-se o ano de 1978, num congresso a LCI e o PRT fundiam-se para criar o PSR (o nome foi uma das maiores discussões). Ferreira Fernandes (agora jornalista do DN) fazia um discurso em que dizia: “temos que garantir que o nosso David ganhe ao Golias.” Do Golias, então secretário-geral do PRT, nunca mais se ouviu falar. David, então pouco mais de 20 anos já era um dos principais dirigentes da LCI. Acabou por ser o principal dirigente do PSR e depois do BE. Identidade descoberta: David era o mais conhecido pseudónimo de Francisco Louçã.
A sua caminhada menos conhecida também passa pela reconstrução do partido (com um grupo muito pequeno de gente jovem) que graças a ele foi o que melhor sobreviveu ao final do PREC.
Ao contrário do PCP não existiu uma politica de purga na LCI/PSR, excepção feita a Francisco Sardo e Francisco Vale no início de 1976, mas os rivais foram sendo eliminados de forma mais subtil. É assim que no actual Bloco de Esquerda não parece restar nenhum dos fundadores da LCI/PSR, há muito poucos dos da geração do próprio FL e não vejo mesmo os que entraram no final dos anos 80 e deram o grande impulso ao PSR no início dos anos 90.
Há alguma diferenças nos métodos utilizados, Louçã é mais brando que Cunhal. Não hesita em usar a mesma demagogia que usa para fora contra os inimigos internos, mas não conheço situações em que se tenha ido mais longe. No PCP há um longo reportório de insinuações e calúnias extra políticas que foram utilizadas contra adversários. Uns seriam homossexuais, outros agentes de tal ou tal serviço secreto, mais recentemente corruptos, ou, ainda, a mais tradicional história da mulher (de preferência estrangeira) que teria dado volta à cabeça deste ou daquele militante caído em desgraça. A posição puritana tradicional do estalinismo favorece esse tipo de argumentos que soariam muito mal quase se defendem posições mais liberais.
Outra semelhança está nas dificuldades do percurso académico, ambos o tinham nas mãos. Cunhal acabou por ter um percurso dificultado pela prisão, a ditadura e o seu rumo de vida levaram-no noutro sentido. Louçã que hoje é conhecido como brilhante académico também terminou a sua licenciatura bastante tarde, a política esteve no meio. Ao contrário de Cunhal que nunca terá hesitado no seu percurso, Louçã encarava a possibilidade, em 92/93, de uma dedicação exclusiva à vida académica.
A palavra coerência também tem sido usada cara caracterizar os dois. A coerência de Cunhal é bem conhecida, foi o acompanhar todas as viragens e “linhas de rumo” provenientes de Moscovo, por mais contraditórias que fossem. Louçã tem, nos últimos tempos, assumido posições que estão muito longe da própria raiz ideológica do trotskismo. Defendeu, por exemplo, boicotes à China, o que vai contra a posição tradicional de Trotsky de defesa do estado operário, ainda que burocraticamente deformado.
O percurso de Cunhal, décadas à frente do PCP, está encerrado. Como os eucaliptos secou tudo à sua volta, basta ver os dirigentes que lhe sucederam. As circunstâncias históricas afundaram o seu partido que está longe da glória anterior, mas ainda resiste. Muita dessa resistência deve-se a Cunhal, às realidades e mitos que soube construir em décadas.
Louçã também tem décadas de direcção partidária, é o decano dos dirigentes partidários portugueses. O crescimento do BE coloca-lhe desafios, já nas próximas eleições pode estar em situação de aceder ao poder (em coligação). O BE tem em comum com o PCP a falta de democracia interna, mas é um partido frágil e heterogéneo que pode quebrar em face desse dilema, ou esvaziar quando as circunstâncias mudarem.
Tal como Cunhal, Louçã tem trabalhado para um lugar na História, como o seu percurso não está encerrado, é difícil dizer qual será, mas não tenho dúvida que uma das suas maiores motivações, tal como aconteceu com Cunhal, estará aqui.
Nuno Pinheiro